Silêncios e um decote perverso
- 31 de dez. de 2013
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O silêncio é o pior ruído para distorcer uma comunicação. Qualquer pretexto é bom para o quebrar.
Um olhar em silêncio pode ser terrivelmente incomodativo. Invasivo. Especialmente quando não se conhece a outra pessoa. Tornamos-nos o centro. O olhar pesa uma tonelada e procurámos desesperadamente um motivo para tal intromissão.
- Tenho algo na cara?
- A braguilha está aberta?
- Será que conheço esta pessoa?
Apesar de vivermos em sociedade, não é suposto cruzar olhares. Muito menos fixar olhares.
Por exemplo:
Entro no comboio e sento-me aleatoriamente ao lado de uma jovem mulher. Com naturalidade, olho pela janela.
De inicio não percebo que lhe estou a causar desconforto, apesar de notar que está algo agitada. Mesmo sem dar por isso, o meu olhar trespassa-a para poder ver a paisagem lá fora. Procuro encontrar uma casa que está par venda por estes lados.
De repente ela fecha ostensivamente a blusa e faz-me reparar que estava entreaberta, obrigando-me a vislumbrar as mamas bem desenhadas e firmes (não se diz seiografia, pois não?).
Até aqui, aquela rapariga tinha sido transparente para mim.
Assim que assumiu que o meu olhar se fixava nela, sentiu-se incomodada e invadida. Procurou uma razão e encontrou-a na sua blusa aberta, pequena para conter tão sensuais proeminências.
Esse mal entendido, trouxe também desconforto para mim próprio, fazendo com que ela ficasse a dois palmos dos meus olhos. A sensação de constrangimento foi uma óbvia consequência.
A partir de agora ela pensará, sempre que me vir no combóio:
- Lá vem o velho pervertido que apanhei a olhar fixamente para as minhas mamas!
Lá está o silêncio a distorcer a comunicação.
Tivesse ao menos o proveito de olhar, já que eram, de facto, um belo par de argumentos.

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